quarta-feira, 11 de agosto de 2010

As Antinomias da ação.

(...) Apenas quando um homem está vivo, sua morte surge como um escândalo, mas um cadáver tem a tranquilidade estúpida das árvores e das pedras: é fácil, dizem os que experimentaram, andar sobre um cadáver e, mais ainda, através de montes de cadáveres. E é pela mesma razão que se explica o endurecimento descrito pelos deportados que escaparam à morte: por entre doenças, sofrimentos, mortes, eles não sentiam mais em seus companheiros e em si mesmos senão uma horda animal, cuja vida e desejos nada mais justificava, cujas próprias revoltas eram apenas sobressaltos animais. Seria necessário ser sustentado por uma fé política, um orgulho intelectual, uma caridade cristã, para permanecer capaz de perceber o homem nesses corpos humilhados. Por essa razão, punham os nazistas um zelo tão sistemático em lançar na abjeção os homens que desejavam destruir. O desgosto que as vítimas experimentavamem relação a si mesmas abafava a voz da revolta e justificava os carrascos a seus próprios olhos. Todos os regimes de opressão justificam-se pelo aviltamento dos orpimidos. E vi, na Argélia, muitos colonos acalmarem sua consciência pelo desprezo que sentiam em relação aos árabes esmagados pela miséria: mas eles eram miseráveis, mais pareciam desprezíveis, de tal forma que não havia jamais lugar para remorso. E é verdadeiro que algumas tribos do Sul estavam tão dizimadas pela fome e pelas doenças que não se podia mais sentir diante delas revolta nem esperança, desejando-se antes a more desses infelizes, reduzidos a uma animalidade tão elementar que até mesmo o instinto maternal tinha sido abolido. Entretanto, no seio dessa resignação sórdida, havia crianças que brincavam e que sorriam e seu sorriso denunciava a mentira dos opressores: ele (o sorriso) era apelo e promessa, prejetava diante da criança um futuro, um futuro de homem. Se em todos os países oprimidos um rosto de criança é tão comovente, não é porque a criança seja mais comovente, porque tenha mais direito à felicidade que os outros: é porque ela é afirmação viva da transcendência humana; é um olhar atento, uma mão ávida que se estende para o mundo; é esperança, projeto.

(Beauvoir, Simone. Moral da ambiguidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, s/d., p. 86-87)

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